Uvas Autóctones, é de beber?

vitivinicultura

Existem com certeza mais de mil variedades de uvas viníferas pelo mundo, e muitas delas são autóctones, ou seja, nativas e cultivadas apenas num determinado local. Portugal, Grécia e Itália são exemplos de países produtores de excelentes vinhos feitos com uvas regionais.

Só em Portugal, há cerca de 250 uvas autóctones, e só uma pequena parte delas é plantada em outros países. Touriga Nacional na região do Dão, Touriga Franca ou Tinta Roriz no Douro e Alicante Bouschet  no Alentejo são bons exemplos lusitanos.

Mas a maioria das cepas mais conhecidas internacionalmente são de origem francesa, isso por causa da tradição histórica da França na cultura do vinho, determinando durante séculos um padrão mundial de qualidade.

Os vinicultores do Novo Mundo, seguindo esta referência, trataram de plantar variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Malbec, Chardonnay e Sauvignon Blanc, todas de origem francesa, eternizando esta dominação dos nomes, mas não dos estilos, pois é importante lembrar que uma mesma variedade de uva, plantada em locais de clima e solo diferentes, produz vinhos com características distintas.

O bom é garimpar e comparar, na taça!

Um novo e delicioso cartão-postal no Sul do Brasil.

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A Vinícola brasileira Luiz Argenta, já conhecida pelos seus bons vinhos, tecnologia de ponta e arquitetura arrojada, acaba de inaugurar aquele que promete ser um dos melhores restaurantes de Flores da Cunha e região, na Serra Gaúcha. O Clô Restaurante, tem esse nome em homenagem à matriarca da família, Dona Clorinda Argenta. O menu, preparado pelo Chef Carlos Brustolin  e especialmente harmonizado pelo próprio enólogo que elabora os rótulos da vinícola, Edegar Scortgagna, tem primores como: “Carré de cordeiro ao perfume de hortelã e velouté de batatas, Codornas ao molho e polenta mole moída na pedra, Bisteca à Fiorentina, e maçãs assadas ao vinho tinto, com semifredo de baunilha artesanal.”

A casa, de 500 m2, tem ainda um atrativo à parte: os salões panorâmicos são todos envidraçados e descortinam 55 hectares de vinhedos ao seu redor, um espetáculo à parte no pôr do sol.

A arquiteta Vanja Hertcert se inspirou nas modernas vinícolas espanholas para projetar os 3 ambientes climatizados, que recebem até 170 pessoas. Detalhe: o preço também é bom. A sequência: couvert, salada, entrada, prato principal e sobremesa, sai por R$ 79.

Na sua próxima viagem ao Sul, vale demais conferir.

E viva a comida, o vinho e o povo Italianos.

comida e vinho Italia

Há poucos dias, em uma manhã nublada de domingo, tomava o café da manhã num hotel em Flores da Cunha – RS, lotado de turistas descendentes de italianos, quando uma senhorinha muito simpática saca do bolso uma gaita e começa a tocar “Merica, Merica”…De repente todos no salão do café se levantaram e a acompanharam, cantando e marcando com palmas, o hino da imigração italiana no Brasil. Fiquei com os olhos marejados, foi uma forma emocionante de começar meu último dia de viagem alí. Na volta, esta cena tão simples não me saiu da cabeça.
Não só em relação à cultura enogastronômica, a história brasileira tem um belo capítulo, com cores que vão além das nossas.

Vejam que bela homenagem a tutti fratelli d’Itália chi “abbiam formato paesi e città”
https://www.youtube.com/watch?v=HPAEJHW3phs

Vinhos para o último (e também o primeiro) jantar do ano.

O jantar de Reveillon merece boas companhias, incluindo os vinhos, os pares ideais para esta ocasião.

Para entradas como canapés, frutas secas, nozes, castanhas, figos e damascos, a pedida é um espumante branco ou rosê com boa estrutura, de textura cremosa e bem refrescante. A recomendação é para os do tipo Brut, de paladar mais seco, portanto mais flexíveis, acompanhando também peixes como o salmão ou bacalhau de preparo mais simples, grelhados ou assados.

Os frutos do mar pedem vinhos brancos “tranquilos” (não espumantes) com alguma personalidade, como um Chardonnay maduro de regiões mais altas da Argentina ou Chile, ou se o orçamento permitir, os clássicos da Borgonha, mais elegantes e minerais. Há ainda os brancos portugueses de varias regiões, de uvas exclusivas daquele país como Fernão Pires, Jaen, Arinto e Loureiro.

Os pratos como perú ou chester, com farofas de frutas típicas, pedem um tinto de médio corpo e boa acidez, jovem e também frutado, como o Rosso di Montalcino , o “irmão mais novo” do famoso (e bem mais caro)  Brunello di Montalcino. Um Pinot Noir da Califórnia também vai muito bem.

Para carnes vermelhas e outras de sabor mais pronunciado, como o tender e o presunto, experimente tintos mais potentes, como um Cabernet Sauvignon, Syrah, Touriga Nacional, que podem vir sozinhas ou em cortes com Merlot, Tempranillo, Carmenere…

Fechando com sobremesas mais leves ou à base de frutas, os espumantes voltam à cena, agora mais doces, como os feitos com a casta Moscatel. Tortas, doces em caldas, sorvetes e mousses combinam com vinhos doces de colheita tardia. Pudins, doces com café ou achocolatados fazem par com o tradicional vinho do Porto, do tipo Ruby (mais jovem e frutado) ou Tawny (mais envelhecido e complexo)

Abacaxi, mel, café, maracujá… existem mesmo estes aromas no vinho? (e na cerveja, cachaça, whisky…?)

aromas do vinho

aromas do vinho

Em nossos encontros com pessoas interessadas na cultura do vinho, esta é uma pergunta recorrente: _”De onde vem tantos aromas tão falados no vinho?”

Muitos acham que isso é invencionice ou exibicionismo de degustadores, outros chegam a pensar que estes aromas são “colocados” artificialmente, mas não. Não só no vinho, mas em outras bebidas, as milhares de reações químicas que ocorrem, podem liberar compostos voláteis (que evaporam facilmente) com cheiros característicos, os quais podemos, de acordo com nossa memória olfativa, associar a uma fruta, flor, condimento, etc.

Por exemplo: Um abacaxi em processo de amadurecimento produz entre outros, o composto químico Butanoato de Etila, principal responsável pelo cheiro da fruta. Quando cheiramos o abacaxi, sentimos na verdade o Butanoato de Etila. Assim como os compostos flavorizantes (que imitam artificialmente o sabor), os aromatizantes podem ser sintetizados em laboratório, sendo ambos usados pela indústria para fazer sorvete de… abacaxi, na verdade um sorvete de Butanoato de Etila, que seu cérebro associou ser abacaxi. (Ok, alguns podem ter um pouco da fruta)

No vinho e outras bebidas (principalmente as fermentadas), a diferença é que os vários compostos aromatizantes que surgem durante a elaboração ou amadurecimento da bebida, são sempre orgânicos e naturais. Quanto a associá-los a outro aroma conhecido, é tudo uma questão de treino, sensibilidade, alguma boa vontade, uma boa dose de lembranças e até a história de vida de cada um.

Como assim? Outro dia, durante uma análise olfativa de espumantes em um de nossos cursos, uma aluna sentiu, antes de todos os presentes e de maneira pronunciada, um aroma que associou ao Jambo.  Imediatamente perguntei:_”Você tem uma história de relacionamento com esta fruta, não?” E ela: _Passei toda a minha infância comendo Jambo colhido na hora, no quintal de meus avós…”

E é por estas e outras que, degustar amplamente um vinho, pode ser, além de didático, muito prazeiroso, nos evocando até os bons momentos da infância.

Alguns vinhos e aromas associados
Cabernet Sauvignon – Pimentão verde, pimenta e frutas vermelhas.
Carménère – Musgo, pimentão verde, feno recém cortado e ervas.
Malbec – Ameixa e violeta.
Chardonnay – Maracujá, abacaxi, melão e banana.
Merlot – Amoras, mirtilo e framboesas.
Pinot Noir – Cereja (Jovem do Novo Mundo) Terrosos (Mais velhos, do Velho Mundo)
Sauvignon Blanc – Flores brancas, grama, frutas cítricas.
Syrah – Pimenta branca, pimenta preta, cravo e canela.
Tannat – Pimentão vermelho, frutas negras.

Parece mas não é

No século XIX, quando a praga filoxera dizimou os vinhedos da Europa, algumas castas foram consideradas extintas, entre elas, a Carménère, até então usada nos vinhos de Bordeaux, França. Foi somente em 1994, que um ampelógrafo (estudioso e cientista das vinhas) francês, Jean-Michel Boursiquot ,visitando a tradicional vinícola Carmen, que tem mais de 160 anos no Chile, percebeu que alguns vinhedos da variedade conhecida como Merlot chilena, demoravam bem mais para amadurecer do que outros, mesmo plantados próximos. Os estudos de DNA revelaram que a variedade em questão era na verdade Carménère, que se tornou a partir daí um símbolo da vinicultura chilena. A semelhança entre o nome da uva e da vinícola, não passa de coincidência.

Jean-Michel Boursiquot

Jean-Michel Boursiquot

CARMENERE_DESTAQUE