Legal demais da conta

queijo do serro

Desde agosto do ano passado, após décadas de luta dos produtores, teve fim uma contradição, sobre uma tradição orgulhosamente nossa: o queijo artesanal mineiro, ao mesmo tempo Patrimônio Cultural Brasileiro, mas proibido de circular fora das Minas Gerais. Isso até então, por causa de leis sanitárias anacrônicas elaboradas na década de 50 e é claro, pela pressão lobística dos grandes laticínios. Feitos a partir do leite cru, como os melhores queijos da Europa apreciados em todo o mundo (inclusive no Brasil), nossos famosos representantes do Serro, da Serra da Canastra e da Serra do Salitre/Alto Paranaíba, finalmente deixaram de ser contrabandeados por uma complexa rede de tráfico envolvendo atravessadores que compravam o queijo nas fazendas, falsificavam seus rótulos e os transportavam ilegalmente pelas fronteiras, para abastecer legalmente as mesas de ávidos consumidores em todo o país. E depois de mais de 300 anos de história da fabricação e degustação do produto, o que sempre foi bom para o mineiro, agora é bom e legal para o Brasil.

Um dos corresponsáveis por esta boa notícia é um divinopolitano, o premiado cineasta Helvécio Ratton. Ele roteirizou e dirigiu uma delícia de documentário “poético e político”, como ele mesmo define, chamado simplesmente de “O Mineiro e o Queijo”, onde denuncia as contradições de leis que, entre outras coisas, impunha períodos de tempo absurdos de até 90 dias para a maturação dos queijos, teoria ultrapassada e baseada em países de climas frios. No nosso clima, como explicam técnicos e produtores no filme, após 90 dias o queijo vira “uma pedra”.

Coluna 122

A clandestinidade possibilitava a mistura de queijos de altíssima qualidade a queijos ordinários e isto sim não era bom para a saúde do consumidor nem para a imagem do queijo brasileiro. Já a flexibilização na venda do produto foi liberada após a criação de dois centros de maturação, importante para evitar contaminações, o que facilitou a vida de cerca de 30 mil famílias de pequenos e médios produtores locais, sem estrutura para atender as exigências sanitárias. E pra quem ainda acha que o queijo artesanal bem curado faz mal, é bom relembrar um dos trechos da entrevista que o Seu Zé Mário, 67 anos, produtor do mais premiado e famoso queijo da Serra da Canastra, concedeu em Dezembro último à Isabela Assumpção (Globo Repórter), a quem “confessa” seu luxo: sempre uma pinguinha no fim da tarde, com um pedacinho de queijo.

_Nunca tomei remédio.

_Como nunca, pra nada?

_Pra nada.

_Nem uma dor de cabeça? Dor de barriga, nada? Nunca engoliu um comprimido?

_Não

_Injeção?

_Não, “Nossenhora”!

zé mário

 

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