A Ressaca, ou… Do céu ao Inferno em Algumas Doses.

“Ai de vós os que vos levantais pela manhã, para vos entregardes à embriaguez” (Isaias 5:11)

Sim, é verdade, a ressaca vem desde os tempos bíblicos (ou até de antes), se perpetuando como uma companheira indesejável e eivada de arrependimentos tardios. E dela não se pode dizer ser antidemocrática, pois abraça a gregos e troianos, principiantes e boêmios experimentados, pobres e ricos… como o Barão MacDuff, personagem de Shakespeare em Macbeth (Ato 2, cena 3):

Macduff: Quais as três coisas que a bebida provoca?
Porter: Ora essa, senhor, vermelhidão do nariz, sono e urina.

Bem, difícil é encontrar um de nós que, em algum momento de nossa vida terrena, não tenhamos experimentado a dor e a delícia de ser, ou vice-e-versa, é claro. Segundo pesquisas, 75% das pessoas que tomam bebida alcoólica tiveram uma ressaca pelo menos uma vez; 15% têm uma ressaca pelo menos uma vez ao mês, e 25% dos estudantes universitários sentem os efeitos de uma ressaca uma vez por semana. (este últimos, só 25%?Hoje em dia… sei não…)
Mas o que provoca este estado tão lastimável quanto dispensável? O álcool, meu caro Whatson…
Quando você está acometido de veisalgia, (sim, este é o pseudônimo nada artístico de sua companheira e se origina na palavra norueguesa kveis, ou “mal-estar depois da orgia” e ainda na palavra Grega para “dor”: algia) o álcool entra na corrente sanguínea e faz com que a o cérebro bloqueie a criação da vasopressina. Sem ela, os rins enviam a água diretamente para a bexiga ao invés de reabsorvê-la no organismo e a diurese aumenta. Na manhã seguinte, o corpo envia uma mensagem desesperada, solicitando que seu suprimento de água seja reposto (boca seca). A urina expele sais minerais e potássio que são necessários para o funcionamento dos nervos e músculos; surgindo as dores de cabeça, fadiga e náusea. O álcool também destrói a reserva de glicogênio no fígado… e por aí vai.
Mas, então, porque beber meu Deus? Bem, numa relação inversa, diz aquele infame piada: “Casamento é igual caipirinha de botequim. A gente sabe que vai dar dor de cabeça, mas…”
O que também não explica nada, é fato. Bem, vamos terminando por aqui, num patrocínio de Engov e Eno, em companhia de umas doses… de textos bem humorados do Veríssimo (este é dele mesmo…), sobre a cruel e inspiradora ressaca.
“A pior ressaca era de gim. Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.
Ressaca de martini doce. Você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.
Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.
Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto. Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.
Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.”*

*Do livro “O Suicida e o Computador”, L&PM Editores, Porto Alegre.

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